Uma das principais dificuldades das classes mais pobres é a questão da moradia. No Brasil de tantos contrastes, é um choque passar e ver uma favela em situação deplorável na Marginal Pinheiro, em São Paulo, a cidade mais rica do País. No Rio de Janeiro, seguramente a mais bela das cidades, as favelas em morros convivem com os grandes prédios de apartamentos onde moram os mais abastados. Nada disso, porém, é pior do que não ter onde morar. A insegurança de quem tem filhos e não tem casa é um pesadelo.
Esse retrato do Brasil já foi muitas vezes discutido e fantasiado pelo cancioneiro popular, em obras como “Ave-Maria do Morro”, de Herivelto Martins, ou “Chão de Estrelas”, de Sílvio Caldas e Orestes Barbosa. Os versos “a porta do barraco era sem trinco, mas a lua furando o nosso zinco salpicava de estrelas nosso chão/tu pisavas nos astros distraída…” mereceram de Manuel Bandeira o comentário de serem os mais lindos da poesia brasileira. Eu concordo. Poesia à parte, para os muito pobres, conseguir a casa própria equivale a ganhar um prêmio da sena. O projeto do Governo Federal Minha Casa, Minha Vida, em parceria com as prefeituras, é uma ação efetiva para tornar menos difícil a vida de uma boa parcela do povo brasileiro. Aqui no Pará, 52 cidades serão beneficiadas, e muita gente já foi contemplada com a casa própria por um preço que o cidadão pode pagar efetivamente, sem correr o risco de ser despejado ou ter que repassar o imóvel. Essa é a diferença do novo programa em relação ao sistema atual de financiamento.
Por meio da Cohab, a nossa companhia de habitação, tive a oportunidade de trabalhar de forma parecida, em meus dois mandatos de governador. Grande parte do que hoje se chama Cidade Nova foi construída no meu governo, e as casas entregues por mim. Hoje é o bairro melhor estruturado do município de Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém. Paralelo a essas construções de moradia, meu governo executou outro programa para quem não se enquadrava no sistema de financiamento, por não ter salário, renda, ou por ganhar muito pouco, sem condições de contrair prestações. A primeira desapropriação que fiz, em 1983, foi na área denominada Ferro Costa, que depois recebeu o nome de Jaderlândia. O poder público doava o terreno e as pessoas faziam suas casas como podiam. O governo entrava com a urbanização, energia elétrica, abastecimento de água, construção de escolas, centro de saúde, unidade policial e áreas de lazer. O ponto mais positivo era que meu governo trabalhava com os centros comunitários, associações de moradores, muito atuantes na época. Então, essas entidades viam possibilidades em terrenos, cadastravam famílias necessitadas e discutiam com o governo sobre o subsídio a ser aplicado. Tenho orgulho de ter beneficiado 40 mil famílias com esse programa. Da época, eu guardo a recordação de ver uma mulher sozinha, mãe solteira com uma tábua e um martelo na mão. Num pequeno diálogo aquela mulher corajosa me disse que seus vizinhos haviam lhe ajudado na cumeeira e que seu patrão – dono da Vitória Régia – lhe fornecera o material. Nunca soube de empresa com esse nome. Enfim, levei o programa a vários bairros de Belém, como na Estrada Nova (a área da Radional) e, sempre interagindo com os centros comunitários, meu governo ajudou famílias que seriam despejadas do Conjunto Panorama XXI, quando a Cohab assumiu o financiamento. A área de maior repercussão até hoje é o PAAR, considerado por muitos como o maior espaço habitacional da América Latina. Havia muita especulação sobre despejo no PAAR, e eu fui visitar a área no primeiro domingo do meu segundo governo. A Cohab assumiu, e eu resolvi o problema. Claro que tive a ajuda de todos os órgãos. Era um mutirão do poder público e da sociedade para enfrentar o problema. A Ação Social, comandada por Elcione, trabalhava com as famílias mais pobres até conseguir material para a construção de um imóvel com um mínimo de conforto. Levei o projeto para municípios como Santarém, Altamira, Castanhal, Capanema e tantos outros que aqui não cabem. Mas foi uma grande experiência essas intervenções dentro da política de reconhecimento da pobreza.
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